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1997-2005

Dormindo com o inimigo: os estabelecimentos GLS cariocas, Rio de Janeiro, março de 2002

É um fato notório que os estabelecimentos GLS – e os que não o são mas quase o 100% de sua concorrência são gays e lésbicas – no Rio de Janeiro, se destacam por sua manifesta discriminação, absurda, irritante. “Le Boy”, por exemplo, uma das mas badaladas boites gays da cidade cobra o dobro de ingresso às mulheres, o legendário “Cabaré Casanova” exibe um cartaz em sua porta de entrada que reza: “proibido entrar com saia” (que terão que fazer as travestis ali então? vestir calças?). Alguns lugares freqüentados por uma maioria de publico gay, jogam fora sem compaixão a qualquer pessoa do mesmo sexo que ouse manifestar carinho, como o caso que denuncio em baixo do restaurante Natural na Ipanema, outro point gay da noite carioca, onde o gerente incluso se mofa de que no lugar aceitam animais mas não homossexuais.

Noite após noite, os gays tupiquinís seguem lotando esses lugares, e somos os mesmos que depois reclamamos políticas afirmativas de não discriminação. Pergunto-me, para que queremos uma lei de união civil se depois não poderemos nem nos dar a mão em um bar (inclusive freqüentado por gays) Que classe de matrimônio será esse que existirá para a lei mas que de fato não poderá exercer-se / visibilizarse?

Além de leis é imperioso produzir políticas também em dois sentidos. Aos que lhes interesse a questão do gay consumidor e cidadão, que como tal exerçam sua pressão sobre o aberrante mercado GLS, tal como hoje esta exposto, e não concorram a estes estabelecimentos.

E aos que nos interessam as políticas culturais por sobre as institucionais, por favor, protestemos, difundamos, vamos a mais lugares e manifestemos mais carinho, enfrentemo-nos em forma permanente, façamos escândalos! Pela força, até que se acostumem. Não que nos aceitem, porque a aceitação, como diz minha amiga travesti Luana Muniz, é um ato que implica afeto, só que não nos incomodem, que não nos perturbem. Não é o direito a ser aceito nem a ser reconhecido, simplesmente é o direito a ser, e como tal nem se mendiga nem se discute, se impõe.

Carlos Eduardo Figari

Nucleo de Estudos Queer Brasil

 Segue a denuncia de meu amigo:

No dia 3 de janeiro de 2002, estava com um grupo de amigos almoçando no restaurante Natural em Ipanema, Rio de Janeiro, onde a maioria do público é formada por gays, e fomos vítimas do tal mal-falado preconceito. Nunca havia presenciado tal atitude e sinceramente, não soube como agir.

Duas amigas minhas que namoram há um certo tempo estavam sentadas na mesa, abraçadas, após almoçarem, quando um garçom do estabelecimento veio nos comunicar que elas não poderiam ficar de “agarramento” naquele local.

Alguns minutos depois chamei o mesmo garçom e perguntei sobre o que ele se referia a agarramento. A definição foi clara: elas não poderiam beijar-se naquele local. Eram normas da casa. Novamente perguntei se não podiam beijar-se na bochecha ou na boca e novamente ouvi que era proibido elas “se agarrarem”. Voltamos a conversar sob os olhos insatisfeitos do gerente e do próprio garçom.

Não concordando com a situação retirei-me do local e ao sair o gerente perguntou-me se tinha alguma reclamação a fazer. Refiz a pergunta a ele e para minha surpresa ouvi tal resposta: “Nós temos recomendação do dono do restaurante e não permitir que pessoas do mesmo sexo beijem-se, pois clientes tradicionais freqüentam o local e eles podem achar feio.”

Achar feio? Duas pessoas que tem uma relação afetiva e estão dispostas a enfrentar o mundo que já é preconceituoso por natureza, são impedidas de beijarem e trocarem gestos afetivos em público, pois “clientes tradicionais” podem achar feio e não gostar?

Alegando que este é um procedimento normal entre os bares e restaurantes daquela área, o mesmo gerente citou o bar Sindicato do Chopp da rua Farme de Amoedo (tradicional point gay de Ipanema), onde os seguranças seriam aconselhados a pedir à clientes gays, que expressem ao seu homossexualismo, a se retirarem do local. Como nunca freqüentei o Sindicato do Chopp, não pude confirmar ou desmentir a afirmação do gerente do restaurante Natural, dizendo ainda que a maioria de sua clientela é gay e lésbica e aceitam este tipo de situação.

Ainda alegando ser ordens do dono do restaurante, beijos e carinhos entres um homem e uma mulher são aceitas, mas entre pessoas do mesmo sexo são proibidos. Onde estão as faixas e placas com os dizeres: “PROIBIDO ATOS HOMOSSEXUAIS” ?

Numa tentativa infeliz de “consolar-me” o mesmo gerente, me perguntou se eu sabia de algum restaurante ou bar que era permitida a entrada de cães. Pois ali era.

Em meio a impotência da situação a qual nunca tinha passado e sem saber como me defender e lutar pelos meus direitos, voltei à mesa, me despedi dos meus amigos (que preferiram abster-se da cena) e fui embora.

Hoje, dia 4 de janeiro de 2002, estou em casa e sentindo-me mal por “não poder” ser gay nesta sociedade em que vivemos e ter que passar pela “aprovação” de pessoas que não tem capacidade de aceitar diferenças.

A única maneira que achei de me defender e me sentir aliviado foi escrevendo estas linhas que expressam a minha desaprovação e tristeza, ao me sentir humilhado com o ocorrido.

Gostaria de pedir à todos que lessem este texto, parassem um pouco para pensar e refletissem o quanto estamos sofrendo diariamente com a abdicação da luta pelos direitos dos gays.  Homossexuais não são animais, tem sentimentos e antes de tudo são serem humanos capazes de serem felizes, tristes, corruptos, maus, bons, pais, amigos, clientes e formadores de opinião.

Como estudante de publicidade sei que um cliente insatisfeito é um péssimo negócio para uma empresa e me sentindo ferido pelos funcionários e, principalmente, pelo dono do restaurante Natural, estou disposto a levar ao conhecimento do maior número de pessoas o que me aconteceu.

Espero que um dia possa andar pelas ruas sem ser visto com uma “aberração” ou algo “tão diferente” que me impeça de demonstrar carinho.

SERGIO EDUARDO

About carlosfigari

PhD in Sociology (IUPERJ/Rio de Janeiro) University of Buenos Aires, Faculty of Social Sciences, Study Group on Sexualities, Gino Germani Research Institute National Scientific and Technical Research Council (CONICET)

Discussion

One thought on “Dormindo com o inimigo: os estabelecimentos GLS cariocas, Rio de Janeiro, março de 2002

  1. travesti ankara travestileri

    Posted by travesti | 03/19/2010, 4:28 PM

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