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7.Working Papers & Interventions

Edson Neris foi morto brutalmente: porque era homossexual?, porque era pobre?, ou porque era negro ?…Rio de Janeiro, novembro de 2004

“Um negro, um branco, ambos homossexuais, apresentando ginecomastia bilaterial, alem de dorsos lisos e de aspecto feminino” (Ribeiro, Homossexualismo e endocrinologia, Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1938

 

A ALERJ parece estar a ponto de cometer o maio “mico histórico”  do século: aprovar uma lei que visa o tratamento de homossexuais. A retórica malintencionada sugere que na verdade é para aqueles homossexuais que decidam deixar de ser-lo… Como se isso necessitara de ajuda terapêutica !!. Tratamento médico, não tem o menor cabimento, na medida que a OMS não considera a homossexualidade como doença em nossas terras ja faz bastante tempo…

O Estado deve entender que o desejo é volúvel e que as orientações sexuais também podem mudar e para isso não é necessário legislar… Num mundo que começa a visualizar isso e a legislar em conseqüência, reconhecendo a liberdade e a autonomia humanas (sem ir muito longe na nossa vizinha Buenos Aires, num pais tradicionalmente moralista, já funciona a união civil sem distinção de sexos).

Em todo caso, é como tentar legislar sobre a possibilidade de abandonar a “negritude”… Dirá-se, mais isso é ridículo… Nem tanto a luz dos últimos acontecimentos no pais: se não é possível deixar de ser negro, ou homossexual, ou “diferente”, contamos ora com o franco “extermínio” ora com medidas mais sutis…

Não resulta estranho que leis absolutamente disparatadas, como a que propõe hoje a ALERJ, se consolidem numa época de radicalização do racismo sem precedentes (as mascaras estão caindo talvez ?), que alcança desde as posturas anti-cotas que afetam diretamente aos negros (que o diga senão a ditadura branca da ordem médica que se opõe as cotas sob o eufemismo da qualidade educativa), o a violenta y bárbara chacina de moradores de rua (que não são brancos de certo), como a “chacina organizada” que nos da de brinde a expressão: “bandido que mata bandido (negro que mata negro…) e legal”, discurso já sem reparos  – e sem vergonha na cara – do obsceno poder estatal…

O jovem Edson Neris, que era homossexual e era negro, morreu assassinado, num parque de São Paulo, com golpes e socos na cabeça, ao igual que os moradores de rua –um dois quais era abertamente homossexual -, talvez pela mesma mão racista…

Nos perguntamos: Edson Neris foi morto brutalmente:  porque era homossexual?, porque era pobre?,  ou porque era negro ?…

O racismo é um só: está nos assassinos do Edson e dos moradores de rua, mas também está no poder, nas corporações e nas leis e políticas genocidas e repressivas: todos deveríamos ser conscientes de isso.

Por isso, hoje mais que nunca, cobram sentido as palavras do dramaturgo alemão Bertold Brecht (que vou livremente reformular) :

Vieram procurando os judeus. No me preocupei: eu não era judeu. Después vieron procurando os homosexuales. Nenhuma preocupação: eu não era homossexual. Depois forma os ciganos. Também não me preocupei: eu não era cigano. Hoje, vem me procurar a  mim e dou me conta que já é demasiado tarde…”

Carlos Eduardo Figari

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

About carlosfigari

PhD in Sociology (IUPERJ/Rio de Janeiro) University of Buenos Aires, Faculty of Social Sciences, Study Group on Sexualities, Gino Germani Research Institute National Scientific and Technical Research Council (CONICET)

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